Domingo, Outubro 16, 2005

 

Outro jogo... outro relato!

Porque nem só do Porto - Benfica vive o país...

Relato do jogo entre o Aliás Futebol Clube e o Grupo Desportivo Realmente

Os jogadores estão já nas suas posições, o público também, o ambiente é de grande excitação, o que se compreende, já que está em jogo o título.
O árbitro prepara-se para dar início à partida.
É o aliás que vai movimentar o esférico.
Perto da bola, encontra-se o seu nº 10, Sacramento da Costa Silva Gomes.
O árbitro apita, o jogador vai dar o pontapé de saída – falhou!
Aproveita-se o Realmente, por intermédio de Lopes Garcia Antunes e Sá, que leva a bola nos pés e uma touca na cabeça por causa do frio e para que o cabelo não lhe tape a visão, já de si diminuída porque já é noite e a iluminação do estádio de Sítio é precária.
Lopes Garcia Antunes e Sá prossegue com a bola, coxeia um pouco de ambas as mãos, evita um adversário desculpando-se com compromissos assumidos anteriormente, aproxima-se perigosamente da grande área, que mostra já um ar aflito, mas tropeça na linha divisória, estatela-se e cai completamente, contorcendo-se com dores no mindinho, ao que supomos.
O árbitro interrompe a partida e chama o massagista que se senta num banquinho e assiste ao jogador.
A assistência assobia um conhecido tango e os jogadores do Aliás protestam junto do árbitro, sugerindo um fora de jogo que nunca existiu.
O elemento do Realmente continua a contorcer-se com dores e com o corpo, enquanto o massagista continua a assisti-lo calmamente, esperando que a crise passe.
O árbitro, cansado, põe o massagista na rua e manda prosseguir o jogo com a marcação de um livre contra o Realmente.
António Cardoso Matos da Pinha fica encarregado de marcar o castigo mas esquece-se e retira-se para o seu meio campo, zangado com todos.
Reage o Aliás, por intermédio de José Manuel Pinto Correia de Almeida, que atira a bola a pingar sobre o grande círculo, encharcando alguns jogadores que ali se encontravam por acaso, e depois a bola sobra para o nº 9 do Aliás, Cruz Costa Gonçalves, que passa de imediato, por não ter jogo, a Antunes Pais Sousa Pereira, que corre colado à linha lateral.
O fiscal de linha agita a bandeirola, mas ninguém liga porque é tique.
O jogador do Aliás continua colado à linha e começa a pedir ajuda aos seus companheiros de equipa.
A cola parece ser das boas e não há modo de tirar Antunes Pais Sousa Pereira da linha lateral.
Mas o jogo prossegue, com Carmo António Jesus Ferreira, o nº 3 do Realmente, a captar a bola e a fugir com ela em direcção às cabinas, interna-se no serviço 2, cama 3, do Hospital de S. José, dribla um adversário e dois espectadores, prepara-se para rematar, rematou... bola sobre a barra!
Impressionante tiro de Carmo António Jesus Ferreira, que fica todo chamuscado de pólvora.
O guarda-redes do realmente vai buscar o escadote para tirar a bola, que ficou sobre a barra e nós passamos aos estúdios, por agora.
(...)
Voltamos ao contacto com os srs. Ouvintes, directamente do Estádio de Sítio, para transmitirmos, em directo, e em rigoroso exclusivo, mais um pedaço do relato deste emocionante desafio.
O resultado mantem-se e passam alguns minutos desde que Jaime Corvelo Reboredo Nunes II ia metendo a bola na própria baliza por descuido imperdoável.
O seu companheiro de equipa, que enverga a camisola com o nº 7 não lhe perdoou e presenteou-o com uma sova, atirando-o para o banco de suplentes.
O árbitro mostra o cartão amarelo mas os jogadores parecem não gostar.
O árbitro mostra, então, sucessivamente, cartões azuis, verdes, cor de rosa e os jogadores acabam por lhe virar costas, totalmente desinteressados, e decidem recomeçar o jogo por desfastio.
A bola a viajar pela intermediária do Aliás, em comboio especialmente fretado para o efeito, e a ser captada por Paulo Carmesim Graça Viriato, da defesa do Realmente que, adiantado no terreno, decide tentar a sua sorte, instalando-se no meio campo adversário; olha em volta, à procura de alguém a quem passar a bola, aguarda a desmarcação de alguns companheiros, mas como nada disso acontece, entrega a bola a um adversário e volta para trás, chateado, aos pontapés à relva.
Vem o Realmente para o ataque, conduzindo o esférico Jaime Corvelo Reboredo Nunes I, irmão de Jaime Corvelo Reboredo Nunes II, embora se diga que o pai não é o mesmo, o que tem causado alguns pruridos no seio do Realmente, que poderão influenciar o estado de espírito dos jogadores.
Jaime Corvelo Reboredo Nunes II passa a Gregório Cosme Valentim, que se aproxima da linha limite da grande área, prepara o remate, prefere passar a Júlio Norberto da Sousa Cunha, que recua um pouco, cruzando agora o esférico, saltam vários jogadores, gera-se confusão, vários pés e mãos, a bola sobra para Carmo António Jesus Ferreira, que não parece interessado nela e o árbitro acaba por aproveitar o ensejo para fugir com a bola e mandar um livre contra o Aliás, não se percebendo muito bem porquê.
A assistência protesta, a polícia intervém e como alguns espectadores a provocam, há pancada nas bancadas.
Mas o jogo prossegue, o livre foi já marcado e Marco Aurélio Coimbra cabeceia para fora, pela linha de cabeceira.
É canto contra o Aliás.
Gervásio Amorim Silva e Pires vai buscar a bola à cama, coloca-a na marca, corre para ela, a bola corre também para ele e encontram-se a meio caminho, abraçando-se calorosamente.
É uma cena enternecedora, o público chora e até os polícias pararam um pouco a sua acção para poderem assistir a esta pungente cena.
É uma boa altura para interrompermos aqui a nossa transmissão.
Voltaremos ao estádio de Sítio, a fim de transmitirmos o relato dos últimos minutos deste emocionante prélio.
(...)
E aqui estamos novamente, em directo do Estádio de Sítio, a fim de transmitir o relato dos minutos finais do emocionante embate entre o Aliás e o Realmente.
Não houve alteração do resultado desde a nossa última intervenção cirúrgica, que por sinal foi ao apêndice do nº 4 do Aliás, que se queixou nas cabinas, sendo de imediato transportado a casa, onde recebeu o conforto de familiares e amigos.
A assistência não arredou pé, apesar da actuação do corpo policial e os jogadores demonstram um certo nervosismo, enganando-se frequentemente nos passes e nos dobles.
É lançamento pela linha lateral, executado na perfeição por Couceiro Alves Duarte, que coloca a bola no peito de Asdrúbal Pimenta Lima, o nº 8 do Realmente que, evidenciando grande domínio de bola, continua com ela no peito até ao meio campo do Aliás, onde a despacha em volume postal, mas engana-se nos selos e o Aliás aproveita-se, lançando um perigoso contra-ataque pelo flanco esquerdo, em direcção à virilha do guardião do Realmente, que sai dos postes, onde se mantinha desde ontem, e se arroja aos pés do adversário, roubando-lhe a bola, as botas e uma peúga.
Cláudio Rodrigues Pato repõe a bola em jogo com um pontapé em profundidade, ficando a bola escondida sob a relva; foram-se um grupo de jogadores para ir buscara a bola, munidos de pás e picaretas, mas o árbitro interrompe o jogo com uma tesoura de alfaiate e determina bola ao ar, por causa das confusões.
O fiscal de linha continua a agitar a bandeirola, mas já toda a gente sabe que são só tiques. Sacramento da Costa Silva Gomes ganha o lance, dribla dois adversários, está na zona frontal da baliza, prefere passar para a zona lateral esquerda, deambula agora pelo centro do terreno, parecendo desinteressar-se da jogada, mas acaba por passar a bola a Lopes Garcia Antunes e Sá, que falha a recepção, fugindo o esférico para a linha de cabeceira; correm Diogo Lopes da Silva Antunes Varela e Sousa e Duarte António Dionísio Almeida Cruz Alves Santos, mas nenhum chega primeiro, chegam os dois em último e disputam a bola entre si, com alguns socos de permeio.
A confusão é salva por Carmo António Jesus Ferreira, que tira um adversário do caminho, com um potente murro na boca do estômago, partindo-lhe alguns dentes, aproxima-se com perigo das redes do Aliás, prepara o remate e fuzila o guarda-redes, que cai para trás, ferido de morte. A assistência ergue-se em uníssono, entoando a marcha fúnebre, o árbitro diz alto “Ainda bem que estou de preto!” e os jogadores juntam-se em redor do guardião ferido.
Chega a maca, o fiscal de linha agita a bandeirola com mais vigor, toda a gente sabe que as emoções realçam os tiques e o árbitro aponta o caminho das cabinas, graças à ajuda de um mapa. Termina assim, da melhor maneira, este emocionante prélio, que opôs o Aliás Futebol Clube ao Grupo Desportivo Realmente, com o resultado de um a outro, que se ajusta perfeitamente ao decorrer do encontro.
Terminamos, nós também, a transmissão directa que efectuámos, em rigoroso exclusivo para o Pão Comanteiga, e com o patrocínio de Elastex, a pastilha elástica que faz bolas na boca e feridas na língua.
“Não deixe os seus filhos à míngua – ponha-lhes Elastex na língua!”
Boa tarde, srs. Ouvintes, atenção á programação que prossegue dos estúdios.
http://www.coiso.net/melhor_desporto.html

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